“A justiça sustenta numa das mãos a balança que pesa o direito, e na outra, a espada de que se serve para o defender. A espada sem a balança é a força brutal; a balança sem a espada é a impotência do direito” - Rudolf Von Ihering



sexta-feira, 8 de abril de 2011

A psicopata da Juvelina


Por Afif Jorge Simões Neto,
juiz da 2ª Turma Recursal Cível  
 
A Juvelina é uma das pessoas mais de bem com a vida que eu conheço. E tinha tudo pra não ser assim tão na boa. Analfabeta, mãe de cinco filhos, onze netos  - e outros tantos a caminho desse mundinho hostil - tirou o sustento da ninhada faxinando a casa dos outros. Apesar de todas as dificuldades encontradas, nunca perdeu a esportiva. Ri até hoje da própria penúria, sublime particularidade agregada ao caráter dos que estão num patamar acima.

Reparando melhor, quem mais reclama só conhece por ouvir falar o funéreo chamado da senhora fome. Não tem a menor idéia do estrago que ela faz nos pequenos. Experimenta passar um dia inteiro sem comer! Multiplica isso por dois ou três e terás o retrato de um ser humano rebaixado à condição de coisa, aparentemente móvel.

Mas, retornando à Juvelina, ela conta que seu pai andava na lona, abaixo de morfina para aguentar o tirão de um câncer que se aquerenciou na carcomida carcaça bugra. Já nas últimas, a cabeça girando que nem coruja dengosa, o velho viu se aproximar do leito final o neto mais novo, uma criança mexerica, dentadura que era um brinco, cheio das preocupações materiais:

― Vô, agora que o senhor tá morrendo mesmo, pra quem vai tocá o serrote?

Conforme eu tinha dito no início, a Juvelina criou os filhos com variadas agonias. Faltava tudo em casa, inclusive marido. O café preto não tinha nem lembrança do açúcar. Toda a trouxa dos mijados ela lavava no muque, felpiando uma nesga de sabão. Aproveitava até o suspiro da espuma.

Depois de aposentada, evidente que a situação deu uma boa melhorada. Aí, como forma de se vingar daquele tempo duro, tal qual a pedra do arroio onde batia roupa, chegou a ter em estoque na despensa 62 quilos de açúcar e 18 de sabão. Grande parte do açúcar tinha virado tijolo, pela inércia do manejo.

Perguntei, puxando conversa, qual a razão para tanto exagero na armazenagem. A resposta veio num repente de ponderação, quase em tom confessional:

- Jorginho, fiquei psicopata por açúcar e sabão...


quarta-feira, 6 de abril de 2011

segunda-feira, 4 de abril de 2011

DEFICIENTE NÃO DE SENSIBILIDADE


Conheci, no Facebook, várias pessoas. Entre elas está uma que, na ocasião das últimas eleições presidências, debatíamos muito sobre o tema. Muito embora, cada um defendendo e respeitando o ponto de vista alheio. Debate civilizado. Assim, não houve incidentes e a amizade virtual perdura. Mantemos contato sempre que possível.

Trocamos algumas mensagens eletrônicas. Em uma dessas mensagens, encontrava-se anexadas algumas fotos. Tenho por hábito deletar de pronto mensagens que contenham fotos. Tendo em vista meu PC ter sido infectado em algumas ocasiões. Essa, porém, foi diferente. Confesso que tomei as devidas precauções objetivando não ter mais problemas posteriores em razão de vírus.

Afastadas as questões preliminares que me amedrontavam, abri a mensagem e contemplei todas as fotos. Entretanto uma (acima) chamou minha atenção por tratar-se de algo (in)comum. Pelo menos para mim.

Afoiteza sempre me encantou. Lembro-me, ainda que vagamente, de que quando saía para o trabalho, nas manhãs ensolaradas (e, chuvosas também) lá do bairro de São Mateus, extremo leste de São Paulo, sentido Praça da Sé e, quanto chegava ao Parque Dom Pedro, era o fim da linha para mim.

Porém ainda tinha que caminhar alguns minutos até chegar ao destino final, que era exatamente na Rua General Glicério – Anhangabaú – bem próximo à estação Anhangabaú do metrô.

Pois bem. Quando chegava ao ponto final (Parque Dom Pedro) eu rumava sentido Ladeira General Carneiro para ter acesso à Rua Direita, onde seguia até o final e assim passava no viaduto do Chá e, pronto, chegava ao trabalho.

A frequência com que fazia esse trajeto permitiu que memorizasse algumas características do local. Quem conhece a região, principalmente a Rua Direita, sabe que ali existe muitas lojas, paisagens agradáveis (desagradáveis, muito mais!) além das milhares de pessoas que passam por ali.

Àquela hora que passava por ali, tanto na inda quanto no retorno, notava que ele estava lá, incansável. Enquanto muitos na mesma condição ou em condições bem mais privilegiada estavam estacionados no comodismo. Vítimas da mais absurda pasmaceira.

Desperdicei a oportunidade de conhecê-lo. Todavia, trago comigo a rica lembrança da mais rica metrópole e suas várias contradições. Essa lembrança não se resume a tão somente mais um cidadão elitizado, que ganhou notoriedade pelos meios de comunicação.

Trata-se de um deficiente físico, muitas vezes rejeitado pelo Estado, pela sociedade sem no entanto se abater. Pelo contrário, levantou a cabeça e seguiu em frente, com dignidade. Chuva ou sol estava ele lá, no horário, trabalhando.

Para felicidade, existe muitos outros (deficientes – não de sensibilidade – espalhados pelo Brasil) que nos honram e nos motiva com sua disposição, competência, determinação. Lembrei-me desse fato assim que vi essa foto enviada pelo amigo. Anos se passaram.

Hoje, fatos supervenientes fizeram com que me distanciasse da mais rica metrópole e seus (des)encantos. Contudo, a imagem desse cidadão será eternamente lembrada. O governo do Estado, que, com sua omissão aberrante, avilta, e rechaça os mais elementares direitos, considera tão somente tratar-se de mais um cidadão José.
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Foto: Alemão Ferraz

domingo, 3 de abril de 2011

Jair Bolsonaro no CQC


CONHEÇA AS IDEIAS DO DEP. JAIR BOLSONARO, MORALISTA, PRECONCEITUOSO, RACISTA, HOMOFÓBICO... PRETA GIL QUE O DIGA...

Veja este vídeo no YouTube:



sábado, 2 de abril de 2011

Rodolfo Pamplona Filho escreveu


A raiz da xenofobia
é o medo de se perder
no tipo de amor e simpatia
que o mundo não quer ver.
É um clichê através dos anos,
desde o inicio dos tempos:
que, quanto mais seres encontramos,
mais nos isolemos...

A história não se cansa
de ver o ódio aberto
a quem se arrisca na dança
de um papel outrora incerto.
O universo está repleto
de histórias de amantes
que não ficam por completo,
só por ser de lugares distantes...

Romeu e Julieta, como exemplo,
é a pior história do universo do homem,
pois, em vez de celebrar um tempo
de amor entre desiguais no nome,
consagra a sua derrota
como se fosse a forma de paz
para a única resposta
da busca por algo a mais...

Por que ter medo de olhar para o lado?
Por que ter ódio do diferente?
Somente pelo temor escancarado,
virtual ou evidente,
de ser "contaminado"
por uma forma influente
de pensar, de crer,
de amar ou de ser...

A melhor forma de combater
o preconceito a outra crença
é se misturar, a não poder,
até não perceber a diferença...
O meio perfeito de terminar,
por completo, a discriminação
é não ter medo de buscar
a pura e simples miscigenação.
Publicado  originalmente aqui.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A chuva cai incessantemente por estes lados....


Galeria Google

A chuva cai incessantemente por estes lados. Há reclamações de que as plantações estão sendo prejudicadas, assim como algumas atividades laborais ficam impossibilitadas de ser executadas. Mais reclamações. A vida continua, apesar das chuvas.

Novo dia. Desperto, olho para o horizonte e de pronto percebo que a chuva ainda está caindo e, segundo os meteorologistas, nos próximos dias, mais chuvas. Vou para o trabalho. Lá chegando, uma passada rápida pelos principais jornais do Estado (alguns, insistentemente, sustentam dizer ser os melhores jornais do país...) porém diante do principal tema por eles abordados – chuva – declino da leitura.

De repente entra na sala um amigo dizendo que acaba de decretar estado de emergência. Motivo: devido às fortes chuvas árvores foram arrancadas, a pavimentação de algumas ruas simplesmente resolveu seguir as águas das chuvas. Mais alguns instantes pude ouvir a sirene do caminhão dos bombeiros.

Chove chuva, chove sem parar. À noite, na faculdade, mais chuvas acompanhadas de muitos comentários e das várias observações no tocante aos estragos por ela causados. Há dias assim relatei sobre as chuvas que castigaram a baixada fluminense.

Felizmente, por cá, não ocorreu maiores tragédias em razão das chuvas. A pior tragédia aqui ocorrida é, sem dúvida, a que acontecesse na maior parte do mundo, a saber: a insensibilidade.

Enfim, novo dia. O sol voltará a brilhar. Não tenho como optar se chuva ou sol nos dias posteriores. Uma coisa é certa: lamento, incondicionalmente, a mão do homem sobre a natureza (o homem ao qual me refiro é exatamente assim, “h” minúsculo).

Presenciei fato lamentável dia desses quando andando pelos corredores da faculdade flagrei alunos (as) jogando papel no chão. Detalhe: distavam pouco mais de dois metros da lixeira. Atitudes semelhantes a essa contribuem e demonstram o total desrespeito com o meio ambiente. E as chuvas castigando as cidades. Inclusive a “nossa!”  

Pode ser que algumas mentes primitivas ainda sustentam o velho discurso de que escola é sinônimo de educação. Ponderar nesse sentido é extremamente importante. Uma vez que educação, na verdade, segundo minha humilde concepção de mundo é algo adquirido em casa (Dizia meu avô ‘in memoriam ’: educação vem de berço).

O que impressiona é o fato de que pessoas, para dizer o mínimo, completamente despreocupadas com questões importantíssimas num futuro não muito distante estarão à frente de responsabilidades significativas. Você confiaria em um profissional que em sua formação universitária dava um péssimo exemplo jogando papéis no chão? Responda se quiser...

Uma das primeiras lições que aprendi quando ainda criança é que deveria atentar e respeitar o direito dos outros. Tenho observado essa regra desde então. Alguns optam por viver seguindo tão somente seus instintos. Outros, felizmente e inexoravelmente, decidem por viver conscientemente.

.....e a chuva continua a cair por estes lados.....